
O diretor George Lucas, de 64 anos, não é um reflexo imediato das aventuras populares que têm encantado gerações de fãs. Pelo contrário, a impressão que dá o sujeto baixo, barbado e de olhar agudo é a de um daqueles críticos de cinema freqüentadores de sessões alternativas. Por telefone, ele se expressa como um professor de cinema bem-humorado. Seu sonho, conforme diz nesta entrevista, é se aposentar para realizar antigos projetos de filmes experimentais. Mas, por enquanto, conta, ele dá seqüência ao seu grande achado: a possibilidae de ampliar um universo paralelo feito de fantasias de futuro.
ÉPOCA - Como surgiu a idéia de criar um novo mundo mitológico?
ÉPOCA - Como surgiu a idéia de criar um novo mundo mitológico?
George Lucas - Não há nada de novo nisso (risos). Pelo contrário. Estudei Antropologia e mitologia na faculdade e acabei sistematizando uma velha paixão. Sempre fui fascinado pelas histórias antigas. Logo me interessei menos pelos detalhes arqueológicos ou de construção de linguagem que pela psicologia que subjaz a cada figura mitológica. São traços que fazem parte da vida cotidiana em todos os períodos da História. De alguma forma, os mitos explicam as características e motivações básicas do ser humano. Dão conta, de certo modo, do funcionamento das sociedades até hoje. Eles são válidos até hoje. A mitologia é a grande fonte do cinema, e, de resto, de todo o conhecimento humano. O que fiz foi transpor os mitos arcaicos para um ambiente de ficção científica.
Você não se sente um pouco como Adão, por ter criado e dado nomes a personagens como Yoda, Chewbacca, Jabba, Palpatine e tantos outros?É uma sensação incrível ver as pessoas tratando seus personagens com intimidade. Eu me sinto feliz por ter criado novidade a partir de elementos arcaicos e de ter convertido a mitologia em uma situação cotidiana.
Por que você voltou à saga de Guerra nas Estrelas, mesmo tendo dito que a saga estava encerrada?Porque eu me divirto muito com ela! É como uma caixa de areia que posso explorar eternamente, como se pudesse toda vez me tornar criança de novo. So um menino entretido num mundo que criei para mim mesmo. É maravilhoso explorar esse mundo e notar que milhões de pessoas sentem essa emoção também.
A história de The Clone Wars acontece um pouco antes do terceiro episódio do filme…Sim, ela faz parte da grande epopéia. E é um momento que faltou mostrar no filme, o da eclosão das guerras clônicas, envolvendo a República e os rebeldes monarquistas. Uma saga como esta permite que a gente se aprofunde em um detalhe – e este detalhe se transforme em uma ótima história. Por isso, convidei Dave (Filoni) para dirigir a animação, porque ele conhece a mitologia de Guerra nas Estrelas até mais do que eu! (risos).
Você naturalmente quis ressuscitar em The Clone Wars o guru Yoda e o gângster Jabba, o Hutt…Sim, gosto tanto deles… Quis enfatizar o caráter esquisito de Anakin Skywalker, sempre desajeitado em cumprir as ordens de seu mestre, Obi-Wan Kenobi. Mais que todos, gosto de Yoda. Ele é a figura do ancião venerável, um sábio que faz falta no dia-a-dia. Quando pensei nele, a idéia era criar um velho pequeno, na proporção de uma criança. Yoda tem um rostinho de criança. Isso faz parte de seu charme eterno.
Por falar em eternidade, você não acha que, de alguma forma, Guerra nas Estrelas se tornou um universo em expansão infinita?O mito não tem fim. O que me fascina é poder inspirar as pessoas, especialmente as crianças, a contar suas próprias histórias. Porque Guerra nas Estrelas é menos um fim que um ponto de partida para a criatividade das pessoas. Com o conhecimento que está lá, você pode partir para sua própria viagem por um universo inédito. Por que não?
Você foi o pioneiro na computação gráfica. Como você vê as novas tecnologias no cinema, como o Imax e o 3D. São soluções para a arte cinematográfica?Sou fascinado por novas tecnologias no cinema – e desde os anos 70 eu trabalho no desenvolvimento de inovações em som e imagem. A tecnologia em IMax, com sua projeção em tela gigante, tem dado um novo impacto de realismo ao cinema. O 3D ganha mais e mais adeptos em Hollywood, e tem me inspirado bastante. A tendência do cinema é ampliar o efeito de realidade, e para isso o som é importante. É o caminho do cinema. Isso não quer dizer que o 2D não seja interessante também. Os novos episódios de Star Wars em animação digital incorporam a perspectiva tridimensional e a estética dos mangás japoneses. São uma combinação intrincada de idéias.
A série continuará na TV. Como estão seus projetos em televisão?Atualmente tenho me dedicado pessoalmente a dirigir documentários e séries de televisão, um meio cada vez mais fascinante. Minha idéia é desenvolver projetos televisivos.
É verdade que sua inspiração para Guerra nas Estrelas foi Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa?Sem dúvida, o cinema de Akira Kurosawa foi fundamental na construção da saga de Guerra nas Estrelas: os vários personagens, a grande missão, a psicologia de cada figura e a própria narrativa em vários planos são influência de Kurosawa.
E há outras fontes cinematográficas que o influenciaram?Sou amigo e fã de Steven Spielberg. Ele revolucionou o cinema de ação e aventura e continua a ser a minha grande inspiração. Minhas fontes de inspiração vêm de meu período de estudante. São tantos diretores que não saberia dizer agora. Vi muita ficção científica nos anos 50. E Stanley Kubrick com Dr. Strangelove.
Você continua sendo um fanático por filmes independentes?Adoro assistir a produções alternativas e obscuras. Faz parte de minha formação. Estou sempre atrás de coisas diferentes no cinema contemporâneo e experimental. Ali estão as grandes idéias.
Como você equilibra seu gosto pessoal, que é de um cinéfilo, com as exigências de produção?Desde cedo eu me dei conta de que tinha de separar minhas inclinações cinematográficas da realidade da produção! Eu aprendi logo que havia o lado da sobrevivência e o do prazer estético. Para ter sucesso na indústria do cinema, não adianta apenas ter idéias geniais ou querer fazer um grande filme. É preciso trabalhar com orçamento, projetos e metas. Vivo sempre esta duplicidade. Antes de realizar velhos projetos pessoais, tive de trabalhar. E curiosamente quando tive uma idéia lucrativa os grandes estúdios de Hollywood não quiseram bancar. Era Guerra nas Estrelas.
Você sempre diz que quer dirigir seus próprios filmes “autorais”. Quando isso acontecerá?Quando eu me aposentar, mas, pelo visto, vai demorar um pouco… (risos) Tenho um monte de idéias de filmes pessoais, uns três ou quatro. Espero só ter tempo para realizá-los. Desde o início de minha carreira como cineasta e cinéfilo, me dei conta de que era preciso conseguir dinheiro para expressar suas próprias idéias. Bem, acho que agora eu posso fazer isso!>> ÉPOCA - por Luís Antônio Giron
Esta entrada foi publicada em Quarta-feira 13 Agosto 2008 às 7:54 pm e é arquivado em Cinema, Entrevistas, Ficção Científica, Literatura Fantástica. Você pode seguir qualquer respostas para esta entrada através de RSS 2.0 feed. Comentários e pings estão temporariamente fechados.
Você não se sente um pouco como Adão, por ter criado e dado nomes a personagens como Yoda, Chewbacca, Jabba, Palpatine e tantos outros?É uma sensação incrível ver as pessoas tratando seus personagens com intimidade. Eu me sinto feliz por ter criado novidade a partir de elementos arcaicos e de ter convertido a mitologia em uma situação cotidiana.
Por que você voltou à saga de Guerra nas Estrelas, mesmo tendo dito que a saga estava encerrada?Porque eu me divirto muito com ela! É como uma caixa de areia que posso explorar eternamente, como se pudesse toda vez me tornar criança de novo. So um menino entretido num mundo que criei para mim mesmo. É maravilhoso explorar esse mundo e notar que milhões de pessoas sentem essa emoção também.
A história de The Clone Wars acontece um pouco antes do terceiro episódio do filme…Sim, ela faz parte da grande epopéia. E é um momento que faltou mostrar no filme, o da eclosão das guerras clônicas, envolvendo a República e os rebeldes monarquistas. Uma saga como esta permite que a gente se aprofunde em um detalhe – e este detalhe se transforme em uma ótima história. Por isso, convidei Dave (Filoni) para dirigir a animação, porque ele conhece a mitologia de Guerra nas Estrelas até mais do que eu! (risos).
Você naturalmente quis ressuscitar em The Clone Wars o guru Yoda e o gângster Jabba, o Hutt…Sim, gosto tanto deles… Quis enfatizar o caráter esquisito de Anakin Skywalker, sempre desajeitado em cumprir as ordens de seu mestre, Obi-Wan Kenobi. Mais que todos, gosto de Yoda. Ele é a figura do ancião venerável, um sábio que faz falta no dia-a-dia. Quando pensei nele, a idéia era criar um velho pequeno, na proporção de uma criança. Yoda tem um rostinho de criança. Isso faz parte de seu charme eterno.
Por falar em eternidade, você não acha que, de alguma forma, Guerra nas Estrelas se tornou um universo em expansão infinita?O mito não tem fim. O que me fascina é poder inspirar as pessoas, especialmente as crianças, a contar suas próprias histórias. Porque Guerra nas Estrelas é menos um fim que um ponto de partida para a criatividade das pessoas. Com o conhecimento que está lá, você pode partir para sua própria viagem por um universo inédito. Por que não?
Você foi o pioneiro na computação gráfica. Como você vê as novas tecnologias no cinema, como o Imax e o 3D. São soluções para a arte cinematográfica?Sou fascinado por novas tecnologias no cinema – e desde os anos 70 eu trabalho no desenvolvimento de inovações em som e imagem. A tecnologia em IMax, com sua projeção em tela gigante, tem dado um novo impacto de realismo ao cinema. O 3D ganha mais e mais adeptos em Hollywood, e tem me inspirado bastante. A tendência do cinema é ampliar o efeito de realidade, e para isso o som é importante. É o caminho do cinema. Isso não quer dizer que o 2D não seja interessante também. Os novos episódios de Star Wars em animação digital incorporam a perspectiva tridimensional e a estética dos mangás japoneses. São uma combinação intrincada de idéias.
A série continuará na TV. Como estão seus projetos em televisão?Atualmente tenho me dedicado pessoalmente a dirigir documentários e séries de televisão, um meio cada vez mais fascinante. Minha idéia é desenvolver projetos televisivos.
É verdade que sua inspiração para Guerra nas Estrelas foi Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa?Sem dúvida, o cinema de Akira Kurosawa foi fundamental na construção da saga de Guerra nas Estrelas: os vários personagens, a grande missão, a psicologia de cada figura e a própria narrativa em vários planos são influência de Kurosawa.
E há outras fontes cinematográficas que o influenciaram?Sou amigo e fã de Steven Spielberg. Ele revolucionou o cinema de ação e aventura e continua a ser a minha grande inspiração. Minhas fontes de inspiração vêm de meu período de estudante. São tantos diretores que não saberia dizer agora. Vi muita ficção científica nos anos 50. E Stanley Kubrick com Dr. Strangelove.
Você continua sendo um fanático por filmes independentes?Adoro assistir a produções alternativas e obscuras. Faz parte de minha formação. Estou sempre atrás de coisas diferentes no cinema contemporâneo e experimental. Ali estão as grandes idéias.
Como você equilibra seu gosto pessoal, que é de um cinéfilo, com as exigências de produção?Desde cedo eu me dei conta de que tinha de separar minhas inclinações cinematográficas da realidade da produção! Eu aprendi logo que havia o lado da sobrevivência e o do prazer estético. Para ter sucesso na indústria do cinema, não adianta apenas ter idéias geniais ou querer fazer um grande filme. É preciso trabalhar com orçamento, projetos e metas. Vivo sempre esta duplicidade. Antes de realizar velhos projetos pessoais, tive de trabalhar. E curiosamente quando tive uma idéia lucrativa os grandes estúdios de Hollywood não quiseram bancar. Era Guerra nas Estrelas.
Você sempre diz que quer dirigir seus próprios filmes “autorais”. Quando isso acontecerá?Quando eu me aposentar, mas, pelo visto, vai demorar um pouco… (risos) Tenho um monte de idéias de filmes pessoais, uns três ou quatro. Espero só ter tempo para realizá-los. Desde o início de minha carreira como cineasta e cinéfilo, me dei conta de que era preciso conseguir dinheiro para expressar suas próprias idéias. Bem, acho que agora eu posso fazer isso!>> ÉPOCA - por Luís Antônio Giron
Esta entrada foi publicada em Quarta-feira 13 Agosto 2008 às 7:54 pm e é arquivado em Cinema, Entrevistas, Ficção Científica, Literatura Fantástica. Você pode seguir qualquer respostas para esta entrada através de RSS 2.0 feed. Comentários e pings estão temporariamente fechados.
